terça-feira, 15 de março de 2016

Encarnação

Virou meu sono do avesso quando eu era pranto e desgraça. Me puxou dali, da forma mais terna e selvagem do mundo. Mas eu gosto de pensar que o salvei também.

Aí me jogou na lama. Pisoteou. Me enterrou viva. Fiquei estática.

Eu dirigia pelas ruas e pensava o tempo todo, o tempo todo. Cada segundo de ócio eram pensamentos mil em suas mãos enormes. Tinha medo de esquecer seu rosto. Era o desespero por carinho.

E nada.

E nem ninguém.

E um quarto vazio. E o vento que balançava os lençóis.

Aqueles lençóis.

A ferida ficou ali muito tempo. Necrosou.

Necrosou com a sensação de falta de amor. De falta de importância. De segundo plano. Eu olhava e não via nada. E até pequenos gestos doíam. Tocar a ferida, rasgá-la de novo, over and over.

Eu fiz isso. Eu fiz isso várias vezes. Eu deixei você me dilacerar várias vezes, sempre esperando por alguma coisa.

Me deixei rasgar. Deixei que rasgasse.

Até que não tinha mais nada de mim. Nada mesmo, só uma sombra daquela mocinha de riso doce. Agora eu era mulher. O rosto sério virou o único. Eu cresci.

E agora, agora que me ama, não há mais nada em mim pra se amar. Meu amor eu direciono pra outro, pra outras coisas, pra outra vida.

Porque na necrose você nem me via.

O fantasma que eu fui agora de repente brilhava. Mas era só uma impressão de outra vida. Na verdade eu sempre estive aqui.

Até não estar mais.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma troca

A chuva tinha lavado a cidade um dia antes quando eu recebi, saindo do jornal, a seguinte ligação: 

"Dai, eu resgatei um gatinho sarnento. Ele está no veterinário mas quando ele sair, você poderia dar lar temporário a ele?", disse uma amiga muito querida. Aceitei sem piscar duas vezes. 

Minha casa tem exatos dois cômodos que o uso não é frequente: um banheirinho e um quarto de visitas, que uso pra guardar algumas coisas. Alguns dias antes, a Pan (minha gata mais velha) tinha sido diagnosticada com leucemia felina - a temida felv.

Pan

Chorei muito, me desesperei e fui obrigada a deixar a Pagu (a filhotona escaminha, gritona e carente adotada há seis meses) na casa dos meus pais. Pra quem não sabe, a convivência entre um gato negativo e um positivo para felv é altamente desaconselhada. 

Me senti a pior gateira do mundo ao deixar ela por lá, mesmo sabendo que ela seria muito mimada e amada pelos meus pais e pela minha irmã, doeu porque me senti irresponsável. Além disso, doía no peito saber que a Panci não viveria tanto quanto eu gostaria que ela vivesse, ao meu lado. 

Pagu

Eu não gosto muito de chorar. É uma fraqueza minha. Mas quando descobri que a Panci tinha felv chorei muito. Sim, por um gato. Porque ela é minha alma gêmea felina, nós estamos sempre em sintonia e eu fiquei de verdade mal com tudo. A Pan é a minha companhia mais frequente hoje, que está comigo a todo momento quando estou em casa. Partilhamos uma rotina, afagos, momentos de silêncio. Cumplicidade. Quando fomos examiná-la para felv ela agrediu três pessoas na clínica. Eu tive que entrar na sala e segurá-la. E com o som da minha voz ela se acalmou e permitiu que tirassem o sangue. Só a minha presença ali a acalmou. E só a dela me acalma.  

Então quando minha amiga pediu ajuda para dar abrigo ao Chuvisco, eu não tive como negar. Foi como se eu me sentisse em dívida. Ouvi muita crítica que aquilo podia perturbar a saúde da Panci, mas não tive como negar. E Chuvisco-Brie (eu chamava ele de queijinho porque ele é todo branco) chegou num dia quente com o rosto já melhor pela sarna que o desfigurou, porém totalmente careca. Ele estava irreconhecível. 

Chuvisco pouco depois do resgate

Nos 20 dias de LT que dei a ele, ficamos companheiros. Eu ficava várias horas com ele no quartinho. Obrigava ele a tomar um pouco de sol e via, pasma, ele abrir sozinho a trava da janela. Ele melhorou muito, ganhou peso e ficou mais bonito. Encontramos o lar dele, mas ele foi devolvido. Naquele dia, minha amiga e eu ficamos muito chateadas. Nos sentimos impotentes naquela missão que tomamos: ajudar um animal de rua. 

O primeiro banho com 1 semana lá em casa
15 dias lá em casa - bravinho porque coloquei ele no sol

Hoje Chuvisquinho está um pitel de gatinho, mora em uma casa com outros bichinhos de estimação e duas crianças que adoram ele. Fica escondido de dia mas de noite cola com a família e balança o rabicó peludo em busca de carinho e atenção. E ganha tudo isso de sobra, assim como devolve em dobro o carinho. 

Hoje, após sua adoção <3

Meu esforço em tudo isso, eu considero que foi mínimo. Eu dei a ele uma chance, só isso. Foi pouco? foi. Mas pra ele fez muita diferença. Assim como fez diferença pra mim o dia em que cheguei perto de uma gaiolinha de doação de gatos em 2008, e uma gatinha rajada e branca agarrou minha manga e fez: "pruuu". Foi o dia que conheci a minha Panpi

Jamais fui a mesma pessoa novamente. Esse tipo de coisa transforma a gente. Basta abrir um pedacinho do coração. Basta pensar "eu posso jogar isso nas costas dos outros. Ou eu posso, uma vez na vida, me responsabilizar". E eu não me arrependo nem um minuto de ter sido LT de um animal de rua. Eu o ajudei a curar machucados, lhe dei comida e um teto. E ele me ajudou a cicatrizar feridas e esquecer tristezas. 

PS: Panci está muito bem, por sinal. Hoje pediu muito atum e amassou muito pãozinho na coberta <3


segunda-feira, 4 de maio de 2015

O que a gente come é (também) o que a gente é

Eu tenho pensado muito a respeito da minha relação com meu próprio corpo, assim, do jeitinho que ele é: costas largas, sobrepeso, coxas grossas, barriga saliente, pescoço com dobras. Eu nunca tive problemas graves com meu corpo, os outros é que sempre tiveram. Claro que às vezes eu pensava: não vou usar essa blusa aqui porque marca a barriga. Mas no geral, eu realmente penso que a vida pode ser um pouco mais do que isso. E sempre foi, ao menos pra mim e pra muitas amigas queridas minhas que também estão acima do peso, sofrem preconceito mas tão nem aí pra isso. O recalque bate na minha dobrinha e volta, queridos! 

Já fui xingada de gorda? Já. E de outras coisas também, mais ofensivas até. E que mulher não foi xingada de: insira aqui qualquer coisa. Sim, qualquer coisa. Se você não é gorda, você "não tem onde pegar e uzomi gosta de carne". Não existe ideal dentro de um espectro onde NADA é ideal caso você seja mulher. Você pode ser branca, hetero, magra, loira, alta, e ainda sim a sociedade vai achar um defeito em você, fica sossegada. Nem que seja apenas pra te chamar de vadia. Mas eu divago.

Tenho refletido muito sobre como era minha alimentação há cerca de uma semana atrás: comendo rápido pra voltar pro trabalho, sem sentir a comida e o sabor dela, almoço no refeitório do jornal que por vezes incluía carnes boiando em óleo (não tô brincando). Muito arroz branco, macarrão e nenhuma fruta, no máximo uma vez por semana. Fast food, comer fora, nenhum cereal. Chegava em casa da rua esfomeada pelas horas que ficava de jejum então fazia o que tava na mão mais rápido: fritura. Comida processada. Mais macarrão. E de manhã saia sem tomar café da manhã. No trabalho enchia a cara de café preto e comia no máximo um salgado. E assim por diante em loop. 

Sabe o que eu tinha todos os dias? Refluxo. Gastrite. Não aguentava subir direito a escada do trabalho mais de uma vez. Dor no joelho que tem a rótula fraca.

Eu sempre gostei muito de várias comidas legais tipo legumes e verdura. Nunca foi problema comer salada, inclusive eu gosto muito. Então decidi, de uma vez por todas, não mudar minha relação com meu corpo, que é meu e de mais ninguém. E sim mudar minha relação com a comida e com o exercício físico. Por mim, pra me sentir mais saudável, pra sentir melhor o sabor das coisas, pra valorizar o que entra no meu organismo, pra consumir e ser responsável comigo mesma.

Pra uma pessoa que nunca tomou café da manhã na vida com regularidade, está sendo uma luta genuína. E estou fazendo de tudo, e sei que ainda posso melhorar.

Minha rotina mudou completamente há apenas 7 dias e sei que isso é um compromisso pra vida toda, o de não abandonar minha saúde. Não importa se eu vou emagrecer. Importa se eu vou parar de ter refluxo. Não importa quantos quilos vou perder porque isso só vai ser uma consequência de uma melhoria nessa alimentação trash. A maior causa vai ser comer melhor e movimentar meu corpo. Eu não aceito que, querer ser saudável, seja uma porta de entrada pra gordofobia.

 Hoje eu chego em casa depois de um expediente duplo em dois empregos, cozinho arroz integral, feijão, legumes, carne sem gordura, tudo no azeite e pouco sal. Peso a mão no manjericão, na pimenta, no alho, porque além de tudo precisa ser saboroso e prazeroso. Monto duas marmitas que vão me acompanhar, mais os lanchinhos pra aguentar o dia sem sentir fome e sem deixar o estômago se remoendo, a ponto da gastrite colar junto. Saio de casa carregada de sacolas, uma de roupa de malhar e outra de comida.

Acordo cedo, sento e como, venho trabalhar mais disposta. Tento respeitar os horários de comer e de uma vez por todas, saborear o que estou comendo. 

Não tem sido fácil mudar bruscamente um hábito de uma vida. Mas no meu corpo mando eu. E na minha saúde também. 


Almoço maravilhoso: eu que fiz <3

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Casaco sobre a cadeira

Junho de 2013, domingo, 9 horas da manhã.

Lembro perfeitamente que eu estava alimentando a Panci na cozinha da casa dos meus pais e meu celular tocou. Era minha editora, na época em que eu era repórter. A voz dela baixinha ao telefone, quase sumindo. "Lyra, você pode vir trabalhar mais cedo hoje?". Aos domingos geralmente o expediente no jornal começa às 13h. Respondi: "O que aconteceu?". "Seu Alê morreu".

Talvez as soleiras da redação toda feita em vidro e piso de cerâmica estejam acostumadas à tragédia. Mas talvez não. Seu Alexandre era o editor executivo do jornal. No sábado (nossa folga), ele partiu num ataque cardíaco fulminante.

Nós, que estamos acostumados com as tragédias normais da vida, nos pegamos de vez em quando encarando o vidro como se pudesse ver além das paredes, além das luzes. Jornalista, aquele que relata a vida. A morte na rua. Homem morto no córrego. Assassinato. Acidente. Vive em delegacia olhando alguns algozes de frente. Lida com a perda em sua forma mais profunda: a factual, a recente.

Temos medo de ficarmos indiferentes, de vez em quando. Acho que todo jornalista já teve esse medo. Eu, pelo menos, já tive.

Há algumas semanas, a redação foi impactada com a morte de D. Regina, nossa revisora, que trabalhava no jornal desde que ele abriu. Ela amava gatos e vivia me contando do quanto mimava sua gatinha, me dando dicas, me perguntando se as minhas gatinhas já estavam se dando bem.

Algumas vezes fui perguntar coisas de revisão pra ela e fiquei papeando. "Dona Regina, qual o uso dessa palavra?". Ela sempre me respondia sorrindo e emendava: "E suas gatinhas, como estão?". Não convivemos muito, mas fiquei muito triste.

Fui perguntar à uma diagramadora justamente se alguém sabia da existência da gatinha, se precisava alimentá-la, e meus olhos pousaram sobre o casaco rosa claro sobre a cadeira. Do jeito que ela deixou. Ela poderia ter estado ali há cinco minutos atrás. Porém jamais estaria de novo.

(texto escrito em 5 de março de 2015).

quinta-feira, 19 de março de 2015

Escarlate não é vermelho

"Me ensine a ver as coisas
E todas as pistas estão, tão embaçadas, através
Escarlate não é vermelho"

Acordei com esse verso na cabeça. E ele não é meu. É de uma banda independente que fez parte de um jeito muito louco da minha adolescência: Torivas.

Me ensine a ver as coisas.

E hoje esse verso significa que eu tenho tanta coisa pra aprender na jornada. Mas agora é como se eu olhasse por uma janela e lá fora só fizesse neblina. Quando abri os olhos hoje e me lembrei desses versos, alguma coisa me incomodou. Talvez estar envelhecendo.

Vim procurar agora se essa banda ainda existia e não, não existe mais. Pararam de atualizar o Fotolog ainda naquela época. Mas ao ouvir os primeiros acordes de "Escarlate" um mundo de memórias veio na minha cabeça, de um tempo que eu não sinto exatamente saudades. Talvez de algumas coisas. Me veio um sentimento engraçado, de que eu vou fazer 26 anos. E eu quero gritar, tal qual eu gritava na minha banda, expurgando demônios a cada apresentação, independente de ter plateia.

Sei lá. Talvez esse loop em que eu me encontro de volta e meia relembrar um tempo que não volta mais seja uma parte do meu desabafo de finalmente estar do lado de cá, na vida adulta.


Me ensine a ver as coisas...