segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vivendo e aprendendo (no death metal)


O que eu aprendi no último sábado, quando cobri o show do Krisiun (RS) e de outras bandas de metal, em um bar de Campo Grande:

- Cuidado com seu equipamento de fotografia quando resolver se aproximar pra registrar os headbangers enlouquecidos. 
- O som é animal e você terá vontade de bater cabeça, então carregue o essencial.
- Fique amiga do técnico de som pra ele te deixar subir no palco e tirar fotos próximas. 
- Ingerir álcool deixa tudo mais divertido. 
- Seus amigos estarão lá, mesmo que jurem que não vão. 

E como diria o vocalista do Krisiun no ápice do show: "Metal doa a quem doer PORRA". Ou seja, foi lindo. Aguardem que vai sair no Rock do Mato. :)



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Letargic

Para minha nega

A nossa vida, nossas juras de paixão e carinho e todas as lágrimas trocadas em noites de amor puro, ou de momentos viscerais de entrega, nada disso dura um virar de página. Não se engane, menina. Não seja ingênua. Não seja boba. 

Ali estava você, chorando desalentada em qualquer sarjeta, e meu deus, como dói! como massacra, o quão abominante é essa sensação de dor, de que estão arrancando um braço seu, que estão te arrastando no asfalto quente. Seu corpo e sua essência. Não importa se foram anos a fio. Não importa se foram os melhores dias da sua vida. Em determinado instante, você agoniza. 

"Como ele(a) pode fazer isso comigo?". Era sua pergunta pro espelho embaçado de vapor, pro travesseiro já cansado do seu rosto afundado, pro seu âmago doente, enfraquecido, subjugado. 

O que eu sei é, que se você não consegue esquecer assim, num piscar de olhos, bem vindo ao Clube da Letargia. Aqui, todos os membros agonizam e reconstroem, peça por peça, seu labirinto de pedaços carbonizados. São as partes do que a gente carrega aqui dentro. A gente esconde do olho mágico, da câmera do computador e das fotografias, as lágrimas. A gente ergue a cabeça. Sente vergonha dos momentos de fraqueza. Se obriga a ser obcecado pela mudança, por melhorar e se reerguer. 

Aqui, não importa se no dia seguinte a pessoa que você amava já estava lá, feliz da vida, com outra. Nesse mundo, eles não existem. São menos que nada. São lendas, surreais. Falta nas pessoas daqui a capacidade de esquecer rápido, de se conformar com essa velocidade desmedidamente avançada. 

É por isso que é doloroso. É incomum. Não é pra qualquer corpo vazio, existência pífia. É pra quem é o mais frágil ser que se corrói por dentro. É pra quem precisa aprender a viver dentro da morte sob dor profunda. Quem precisa acordar todos os dias e sentir o medo se esvaindo, aos poucos.

E cada vez mais você aprende a fechar as portas. A olhar as pessoas sem realmente vê-las. A se vestir de manhã, agradecer pela noite e dar adeus. A não sentir mais vergonha. A não ter mais, de fato, medo. Você se torna oco à primeira vista. Mas não é bem isso: é que sua verdadeira essência cheia de buracos está tão guardada, tão blindada, que você a prendeu sob sete palmos e nunca mais ninguém tocará nela. Você não vai deixar. E os dias de sofrimento serão só uma marca detestável, indistinguível de todas as outras. 

Aí em algum momento, você irá deixar a blindagem ir. Mas uma nova casca já terá se erguido sobre esse precioso tesouro que você guardou. E isso, somente isso, vai te bastar na sua jornada

Só me prometa que nós não teremos pressa. Eu não tenho. 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

As frágeis de Westeros

Conheci a saga As Crônicas de Gelo e Fogo por meio da série de TV, e me apaixonei imediatamente. Ansiosa e afogueada que sou, fui no dia seguinte à livraria atrás dos livros disponíveis, encomendando na pré-venda o indisponível e já olhando tudo quanto é site a respeito.

Essa semana comprei o quinto da saga que começa com Game of Thrones, menos aloka da livraria, porque tive uma certa dificuldade de achar. E também porque achei Festim dos Corvos (o quarto livro) incrivelmente lento.

Meninalyra em relacionamento sério com seu livro.

A saga de George R. R. Martin é extremamente violenta, ou assim eu classifico. E pra mim se aproxima muito mais de uma certa ~realidade~ medieval (excluindo-se alguns elementos fantásticos que dão o 'tchan' a mais). E são livros masculinos, onde muitos dos personagens são homens (quase todos). Porém, me chama atenção a incrível fragilidade das mulheres. E também sua incrível força.

Em Westeros, vigora a lei do fogo e da espada. Entre brigas de reis, banhos de sangue e batalhas, estão as mulheres. E elas são o fio condutor da mudança, do amor, e da coragem, mas também do ódio e da dor. Elas que sentem tudo, enquanto os homens tragam a terra em guerras vermelhas. E tem mulher pra todo tipo de perfil: tem a rainha Cersei Lannister, intolerante, ambiciosa, fria, mas que defende seus filhos como uma leoa. Daenerys Tangaryan, filha de reis e exilada, obrigada a casar com um guerreiro em troca de um exército, e que se torna a mãe dos dragões. Arya Stark, filha dos lobos, que aprende desde muito criança a sobreviver no mundo asqueroso da morte. 

Recomendo ler todos, e saborear cada trama que se desenrola no feminino da história. No poderoso e frágil. 





PS: Alerta de spoiler
A cena em que Daenerys, em Tormenta de Espadas, lidera um exército de Imaculados, me tirou o fòlego. Bem como o trecho em que Arya Stark foge das ruínas de Harenhall, aos 12 anos, matando homens em seu caminho com a espada fina e afiada, Agulha. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Palco




"Meninalyra, como é cantar num palco?"

"É como aprender a andar de bicicleta, e um dia se ver descendo uma ladeira íngreme e perigosa. É como fazer amor e descobrir, sensorialmente, todos os orgasmos possíveis". 

"Você não sente falta?"

"Todos os dias". 

A primeira vez que eu cheguei perto de uma bateria, meu coração disparou. Eu tinha 12 anos. Estava numa festa com a família toda, e apontei pra banda de rock que tocava, e eu só conseguia enxergar o baterista, sentado numa Pearl verde-limão toda cromada. Meu ex-cunhado me disse que ia me ensinar a tocar.

Na escola, eu não tirava Nirvana do som. Oitava série, as primeiras descobertas do rock. Aos 13 e depois 14, comecei a perceber que eu era muito impaciente e diferente daquelas meninas. Não me agradava ouvir o que elas ouviam. Perdi as antigas amigas e passei a andar com a menina "estranha" da sala. Ela me mostrou outras bandas e disse que iria comprar um baixo. "Eu queria ter uma banda", eu falei. "Mas não sei tocar nada". "Você irá cantar", ela disse.

Outra festa, só pessoas mais velhas que eu, a única criança. O ex-cunhado e sua banda de hardcore. No meio do showzinho, numa casa antiga, pra algumas pessoas, mãos me empurraram até o palco, enquanto eu olhava horrorizada pra ele, que me estendia um microfone. Eu tremia, e ele disse "Eu já te vi cantando essa lá na sua casa, sei que você sabe a letra, canta aí!". Zombie, do Cramberries. Eu cantei tão timidamente que não lembro se alguém ouviu, e nossa, como doía o nervosismo no fundo do estômago, e eu encarava os rostos à minha frente e me perdia no inglês, e tentava fazer agudos que não saíam. Medo de acharem ruim, de ter a auto estima já frágil mais sabotada. Que menina que eu era. Criança.

Quando dei por mim, estava pedindo um violão de aniversário de 15 anos. Não uma festa, nem um vestido. Nem joia, nem banho de loja. Não. Eu queria um violão simples, um Di Giorgio,  porque queria fazer transbordar aqueles sons que eu ouvia dentro da cabeça. Peguei um caderninho e comecei a escrever, a dedilhar. 

O primeiro show da primeira banda formada foi na escola. Me juntei com alguns amigos tão inexperientes quanto eu. Ipnozy, chamava-se. Em seguida, foi a Salem, que eu formei com duas amigas e um amigo. Nós andávamos de preto, tocando Kittie, Slayer e Pantera. Nessa época eu era guitarra base também, adorava cantar e tocar, me sentia poderosa. Andava de shorts e coturno, olhos pretos de lápis, cabelo colorido, e usava umas luvas na mão que eu mesma fazia, com renda. Eu era quase uma caricatura. Eu dizia pro mundo: "eu posso sobreviver".

Amadureci. Usura, a banda onde dei vazão às minhas próprias criações, compondo e aprendendo o quanto a música te proporciona transpor barreiras. Fizemos shows em muitos lugares. Tocando, os quatro eram um só. Veio outro projeto, menor, depois. E a Bullet Cluster, minha última banda.

Eu tenho um milhão de histórias sobre isso: de lá pra cá foram nove anos, em que eu subi no palco e experimentei a sensação de ser um todo, de ser a atenção, julgada, de captar emoções. De ter uma verdadeira ligação telepática por meio da música, de olhar para o baterista e ele saber exatamente o que eu tava pensando e o que queria dele, que ele fizesse duas marcações no chimbal, que ele captasse a minha essência e alinhasse com seus próprios pensamentos, e aí, sem esperarmos mas ao mesmo tempo querendo, o baixo se transpondo, sonoro. A guitarra finalizando a orquestra. E eu vomitava palavras, gritava, chorava, sussurrava.

Quantos olhares eu não traguei, do alto do palco, até a platéia. Meninas suspirando. Homens impacientes. Pessoas incrédulas sobre o que uma menina de cabelo longo e jaqueta de couro, estaria fazendo ali, no meio de todos aqueles caras. Dos olhares de espanto no momento em que a voz gutural saía. Ou que eu afinada, entoava refrões desconhecidos. "Não sabia que você tinha essa desenvoltura, menina" Tardes de ensaio em casa, tocando no escuro com a iluminação de velas. Começar a cantarolar sozinha e terminar o dia com uma música formatada, porque eles seguiam minha deixa e a gente iniciava sessões intermináveis de sons e ruídos.

Eu era tão menina. Mas no palco, eu era sempre maior.

E o frio na barriga, e os sons vibrando nas caixas. E o bumbo que batia rápido, em sincronia pulsante com o que eu levo aqui dentro do peito. E fora, e nas pessoas, e dentro de mim e de todas elas. A gente era o palco.


domingo, 9 de setembro de 2012

A noite é rotineira

"Porque estás tão misantropa, Meninalyra?"

O cenário que eu chamo carinhosamente de 'minha vida' não anda propício. Meu corpo se separa da minha consciência e reclama de ter que dormir tarde, passar muito tempo na rua. Parei de fumar e dei um tempo na cachaça. Eu era menina faceira que amanhecia na rua e agora me sinto uma velha de 100 anos. 

Me obriguei então a enfrentar o asfalto, o humor pesado como anda sempre nesses tempos meio negros, meio complicados. Coloquei um bom traje de guerra e pintei no rosto a camuflagem perfeita, que diz hey, veja como eu não ligo pra nada, só pra minha cerveja de hoje e tal! e ousei colocar os pés fora do meu bunker de segurança, minha própria casca. 

No bar, resisto bravamente à vontade de fumar. I quit, baby. Todos fumam ao meu redor. Tento concentrar minha atenção numa rotina que eu vejo desde sempre. Começo da noite é travado, é sempre macilento e odioso. Não há álcool o suficiente nas pessoas. Ouço um "vamos beber?". Meu copo está preparado pro holocausto. 

Encosto no bar e esvazio copos. Fumo por osmose, enquanto algum random guy sopra fumaça do meu lado e puxa assunto, que eu correspondo por cortesia. Ouço conversas que não fazem sentido, e outras que fazem. Ali, parada, com um copo entre as mãos, parece que estou naqueles filmes onde o personagem fica parado e todo mundo vive em velocidade maior ao redor dele, mas ele não. Ele permanece em slow motion. 

Passa das três quando saio do estupor e começo a engajar conversas com desconhecidos. Já estou meio alcoolizada. É sempre engraçado. É sempre a mesma coisa, a mesma rotina. 

Só penso, no final: "Que puta ressaca terei amanhã". Acordo com bombas dentro do crânio.