segunda-feira, 27 de maio de 2013

Somebody put me together

Assim mesmo, com a voz animada e melodiosa de Mike Patton, com as cores explodindo, peixes voadores, uma mão bizarra com um olho na palma, esse clipe feliz e vibrante. Minha inquietude soa exatamente como essa música, vontade de sair socando paredes vestida de Alex do Laranja Mecânica. 



"Back and forth, I sway with the wind
Resolution slips away again
Right through my fingers, back into my heart
Where it's out of reach and it's in the dark
Sometimes I think I'm blind
Or I may be just paralyzed
Because the plot thickens every day
And the pieces of my puzzle keep crumblin' away
But I know, there's a picture beneath"

De certa forma, eu me arrependo de não ter ido no show do Faith no More em 2011. Eu não havia planejado essa viagem e havia recém terminado, tomei outros rumos naquele fim de semana e viajei pra outro lugar, tentando me consolar acreditando que em breve eles voltam pro Brasil e daí eu vou. Esses planos. Olha, que droga. Talvez eu esteja exatamente paralisada como na música. Porque minha indecisão já me levou embora alguns anos da vida. E nesse momento é como se eu estivesse em uma ponte frágil e quebradiça que não vai dar em lugar nenhum. 

"Indecision clouds my vision
No one listens...
Because I'm somewhere in between
My love and my agony
You see, I'm somewhere in between
My life is falling to pieces
Somebody put me together"

Tem gente que insiste em dizer que eu sou uma típica "ariana", que meu signo no horóscopo dita o meu jeito  e essa minha tendência de começar a surtar toda vez que acho que tem alguma coisa me controlando. Já ouvi isso zilhões de vezes, só que eu não acredito em horóscopo. Toda vez que eu reúno cinco razões pra dar o fora de Campo Grande, os dias vão passando e essas razões vão se quebrando que nem um castelo de cartas. Minha rotina tem sido erguer isso de volta todos os dias, de forma exaustiva, pra que uma hora não caia mais e eu parta. 


Somebody, somebody put me together. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Três filmes sobre: Distopias

Fazia horas que eu não vinha com o #TrêsFilmesSobre, né? culpa da vida de repórter! e de música! e de mãe de gatos. Então vamos lá: três filmes de hoje é sobre distopias

Definição mais que sagaz da Sybylla: "(...) é o contrário de utopia, aquelas sociedades perfeitas e sem desigualdade". Sociedades distópicas são tema, com frequência, de filmes e seriados. Me favorito do gênero é o clássico "1984", de George Orwell, que descreve exatamente como é uma sociedade distópica, que geralmente agrega regimes totalitários, caos e colapso, opressão, desesperança e controle social.  Confesso que, dos tipos de ficção científica, é meu favorito. Os filmes que selecionei tem em comum o fato de se passarem em terras distópicas, apesar de terem histórias centrais diferentes entre si. 

1. Blade Runner (pt. Blade Runner: o caçador de androides)

Com uma fotografia de tirar o fôlego, esse filme de Ridley Scott não apenas possui um elenco estrelado (Harrison Ford, Daryl Hanna e por aí vai), mas também se mantém extremamente ~cool~ nos dias de hoje. Os efeitos especiais parecem ultrapassados mas continuam impressionantes. E a androide Pris de Daryl é um show a parte. Na história, a sociedade cria replicantes para servirem à humanidade, mas em algum momento acontece um motim. Deckard, personagem de Ford, navega entre seu conhecimento sobre a "natureza" dos replicantes, e seu interesse por Rachel, uma androide que ignora sua identidade por uma manobra de seu criador. A dinâmica de Blade Runner é considerada lenta por algumas pessoas, mas eu me sinto presa naquele mundo futurista, ciberpunk e extremamente destruído. 

Porque assistir: Harrison Ford Indiana Jones age da maneira perfeita na pele de Deckard. Caso a história não te atraia, vale a pena assistir pelo visual do filme, que é muito interessante (mistura de futurismo com uma pegada sombria). 



2. The Hunger Games (pt. Jogos Vorazes). 

Pra variar eu comecei com o livro de Susanne Collins, que pegou um monte de adolescentes pelo pé. Achei a história sensacional, mas muito porcamente escrita. Para mim, Susanne teve uma ótima ideia e  escreveu muito mal. Ela peca no desenvolvimento de cenas que poderiam ser muito mais sensacionais do que realmente são nas obras literárias. Por isso, fui assistir o filme só quando chegou no Netflix, tamanho receio de terem zoado a parada já um pouco prejudicada pela falta de traquejo literário da autora. Mas me preocupei em vão: o filme inclusive melhorou algumas das cenas, deu uma forma mais concreta aos personagens da Capital, que é a "máquina" do totalitarismo da história. Em The Hunger Games, existem 12 distritos submissos às vontades da Capital. Para lembrar que rebelião e motim são crimes, todos os anos cada distrito envia dois jovens para uma arena, onde eles deverão lutar entre si até a morte, tudo televisionado. A protagonista é Katniss Everdeen, uma jovem que cuida de sua família desde cedo e que se oferece para morrer na arena no lugar da irmã.

Porque assistir: Nunca entendi a comparação com a franquia Crepúsculo, já que Katniss é uma personagem forte e destemida, uma sobrevivente. Destaque para as cenas com a personagem Rue. A história é sobre opressão, acima de tudo. A atuação de Jennifer Lawrence como Katniss é muito boa. 




3. Children of Men (pt. Filhos da Esperança)

Uma sociedade desfeita: essa é a fórmula principal do filme. Eu assisti há cerca de um ano, e me lembro que fiquei pensativa com ele. O filme também tem atores estrelados. Eu não vou muito com a cara do Clive Owen, acho ele meio ruim, mas com a Julianne Moore você até esquece disso. O diretor Alfonso Cuarón é muito competente e é um daqueles diretores que imprime sua personalidade ao filme e eu adoro isso. Na história, as sociedades entram em colapso porque os seres humanos se tornam estéreis. No meio do caos, um homem deve ajudar um grupo de guerrilheiros a salvar uma mulher grávida, a única no mundo inteiro, para que ela seja a esperança de todo mundo. O filme tá mais pra distopia de uma sociedade em plena crise, onde a máquina de opressão é o caos, do que a figura central de um ditador, por exemplo. 

Porque assistir: A fotografia é muito bonita, cinza e cheia de cenários que impressionam, de zona de guerra a estrada com floresta. A trilha sonora também envolve você, por mais que saiba que em filmes de distopia, sempre alguma coisa dá errado e a luta pela sobrevivência é uma das mais difíceis. 



PS: Eu, psiu. Criei uma fanpage aqui pro blog. Curte aqui! ;)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Registros Oníricos: I. A excursão para Férmion

Hoje tive um sonho, de novo. E decidi que quero catalogá-los, registrá-los e guardá-los em algo mais duradouro que papel. Como um museu de história natural, só que dos meus sonhos, usando a escrita pra isso. Porque é só dessa forma que sei me expressar. 

Por isso inauguro a seção "Registros Oníricos". De vez em quando eu vou escrever aqui um sonho ou outro. Principalmente os bons. Obrigada por serem meus cúmplices nessa jornada deveras estranha, mas de um jeito bom. :)

Lyra. 

I. A excursão para Férmion

                                 “O princípio da exclusão de Pauli diz que uma partícula elementar conhecida como férmion não pode ocupar o mesmo estado quântico simultaneamente. (...) Em linguagem leiga, ele não pode ser positivo e negativo ao mesmo tempo, ou ligado e desligado, ou sim e não. As escolhas, como se percebe, são a base para tudo o que existe”. (Resenha de “Daytripper”, de Gabriel Bá e Fábio Moon, pelo Universo HQ) 

Duas portas se abriram para mim, duas portas enormes e pesadas de vidro denso. E mais um mundo, um universo ímpar de páginas, alcançou meus olhos dormentes. Eram tantos livros naquela loja imensa que até o calço da porta era livro também, milhares, milhões. Aquilo era o que uma livraria deveria ser pra mim. As pequenas livrarias tem seu charme, mas essa, que projeto maravilhoso, pensei com meus botões. Havia uma abóbada de vidro que fazia raios de luz entrarem, como se fosse uma grande estação de trem cheia de livros dentro. O piso era de madeira com carpete vermelho. Não era aqui em Campo Grande, era em algum lugar perdido no mundo perfeito que eu imagino. 

Eu era uma garota de alma nova ao abrir as portas dessa livraria. Usava meu vestido azul marinho com estampa de passarinhos brancos, tênis brancos nos pés e um casaco preto. Minha boca estava pintada de vermelho e o cabelo comprido solto. Me sentia tão menina, tão nova e cheia de expectativa. 
Caminhei decidida corredor afora, encarando as prateleiras com fome de ver mais, de olhar as partículas de cada livro daqueles. Então senti uma presença atrás de mim, e uma mão que acariciou meu braço. Mas não qualquer carícia. 

Sabe quando você está caminhando e esbarra de leve em alguém? Aquele primário momento em que sua pele toca a do desconhecido, e seu corpo se encosta por um centésimo de segundo no do outro, em uma terra nunca habitada. Um arrepio espinha afora. Me virei e vi um rosto muito perto do meu. 

- Me desculpe o esbarrão – ele disse, me olhando. Captei aquele rosto desconhecido, que eu nunca havia visto na realidade concreta. Acho que eu o inventei. – Mas você precisa ir até aquele corredor. 

- Mas eu não te conheço. – argumentei um pouco surpresa. 

- Eu te conheço e é só isso que importa – ele sorriu. 

Sorri de volta com aquele sorriso meio de canto da boca. Magro, óculos redondos, cabelos castanhos batendo no ombro combinando com a barba até cheia, apesar da cara de novo. A barba era arruivada. 
Ele segurou a minha mão e me levou por dois ou três corredores de obras bibliográficas, e aquele lugar era tão grande que a gente chegou a correr. Me lembro que a camisa era xadrez em tons de azul e verde. Isso não importou muito, porque eu estava hipnotizada por aquela mão quente que segurava a minha, uma mão grande e cheia de brancos dedos. A minha mão pequena não teve a menor chance. 

E depois de correr por horas, por dias, por anos e por microssegundos, a gente parou ao lado de uma enorme estante de madeira, que abrigava todos os livros que eu já li, e isso eu sinto por essa razão inexplicável, a mesma que com uma batuta de maestro me guiou porta adentro. E Barba Ruiva (vamos chamá-lo assim) puxou um livro grande e branco de uma estante e colocou nas minhas mãos dizendo “Você precisa ler Daytripper”. 

- Eu me lembro dessa HQ, eu vi... – comecei a argumentar, mas sua voz retumbou me interrompendo. 

- Não, você não viu nada. Seus olhos vidraram, você parou no tempo. Lyra, Menina Lyra, Lyrinha. Menina Daiane, Dai. Você precisa correr. Na chuva. Agora. Vem. – ele agarrou minha mão de novo, e a voz estremeceu assim como minhas pernas, mas eu fui forte. E com uma edição imaginária de Daytripper debaixo do braço, eu corri de mãos dadas com ele. E corremos, sem parar. 

E chegamos na chuva, no meio de uma avenida que transbordava um esgoto e era tudo cinza e se esvaía com a água abundante. Eu parei sem fôlego tentando salvar meu livro da água, mas nas minhas mãos já não havia nada mais. Barba Ruiva olhou nos meus olhos e me beijou. Um beijo de amor.

Senti a barba roçando nos meus lábios de menina, na minha bochecha. Ele desgrudou o rosto da minha boca, beijou minha testa e segurou meu rosto de volta. E sussurrou em meio à chuva que embaçava seus óculos: acorda.


Acorda. 



E eu acordei, e abri meus olhos nessa manhã fria. Mas eles não estão mais vidrados. 



domingo, 5 de maio de 2013

Essa saudade do cinza


Minha memória me trai, mas é preciso continuar.

Eu precisei passar alguns dias em São Paulo pra entender porque se ama e se odeia aquele amontoado de prédios, viadutos e gente, muita gente. E descobri de uma forma intensa. Decidi que amo, da sujeira às vitrines brilhantes. 


Não falei ainda do show do Queens of the Stone Age no Lollapalooza porque chega que a saudade dói profundamente. Se 2013 começou triste e sem graça, aquele instante do show foi o momento do ano até então. Eu queria que a minha vida fosse um eterno show de Josh Homme e trupe, um loop eterno, e eu vivesse aquele momento sem parar eternidade afora. Do it again. Do it again and again. 

(Destaques do show, na minha opinião: Burn the witch, que teve coro da plateia antes de começar, Hangin' Tree que eu chorei do começo ao fim e My God is the sun, a do disco novo tocada em primeira mão - algo como world première). 


Já fez um mês. No hostel da Vila Mariana, aquele lugar bucólico perdido no meio de outros labirintos, me senti em casa, mas na verdade minha casa era o mundo. Conheci israelenses, cariocas, paulistanos, gente do Acre e do nordeste inteiro, e uns dois americanos. Todos os dias eu saia de lá em busca de ver mais, muito mais. Entre quase ser prensada na porta do metrô, conhecer o caos de barracas que é a Rua 25 de Março e tomar café israelense, conheci a famosa Rua Augusta, em uma sexta-feira.

É claro que a gente parecia dois caipiras no meio da confusão, e eu me sentia a menina mais inexperiente do universo. Pessoas na calçada, bares em pequenas portas, mundos inteiros à parte. São Paulo e seu clima frio à noite me permitia sair de jaqueta de couro, e incrivelmente, ninguém reparava em mim com olhos espremidos, como quase sempre acontece. Eu era mais uma, eu era invisível, e eu adorei isso. 

Comemos em botequins, vimos surrealidades na Praça da Sé e na Galeria do Rock. Conheci duas amigas muito queridas que eu só havia visto pela tela do computador, andei por bares charmosos e jantei comida espanhola, tapas & tortilla. Tomei erdinger em outro boteco, experimentei cheiros e sabores como nunca. Esqueci que meu aniversário é um dia odioso e me permiti ficar feliz por ser 31 de março. Andei nas ladeiras da Augusta até os pés reclamarem.

E voltei pra cá.  

Voltei pra uma cidade que eu teimo em querer deixar. Voltei para a parte boa, meus amigos e minha família, meus gatos. E para a parte ruim, também. Eu insisto em querer ir embora porque não quero morrer enterrada pra sempre no meio do Pantanal. Um dia eu rompi as paredes da bolha em que vivia, e pra lá eu não volto mais, pra uma vidinha mais ou menos, eu não volto. Preciso romper agora os limites físicos. 

"Você é a cara de São Paulo, menina, em um bom sentido!" - me disse uma amiga de lá. Poucas vezes eu me senti tão lisonjeada. 

São Paulo, eu te amei e sinto imensamente a sua falta. 






sexta-feira, 3 de maio de 2013

E há tempos tive um sonho


Parece cocaína, mas é só tristeza
Talvez tua cidade.
Muitos temores nascem do cansaço, e da solidão
Descompasso, e desperdício.


Sei lá porque mas hoje passei o dia todo com essa música na cabeça. Desde que roubaram meu celular velho, onde eu escutava música, só consigo ouvir em casa. Aí por não ouvir música mais durante o dia, sempre que alguma coisa encafifa na minha cabeça, lá ela fica. Hoje foi "Há tempos", música que eu ouvi por demais quando era criança, e acho que ficou na cabeça talvez porque falamos (na redação) do filme sobre o Legião Urbana que vai ser estrear amanhã. Sei lá. 

Só sei que há tempos tive um sonho, não me lembro, não me lembro.

Os dias tem sido pesados. Primeiro de tudo, eu parei de fumar. Há três semanas. E venho resistindo aos pequenos grandes impulsos, como comprar cigarro na banca. Ter pessoas fumando do meu lado e me contentar em permanecer em um silêncio resignado. Enganar a hora fatídica do cigarro no expediente tomando mais um copo de café. Eu não era a fumante mais viciada das galáxias, mas mesmo assim decidi parar. Mais um vício que deixo pra trás

É dificil quando já estamos acostumados a não termos mais nem isso. 

Eu voltei a fumar numa época muito específica da minha vida. Havia parado há seis meses. Numa quarta-feira de outubro, em 2011, terminei um relacionamento de 8 anos. Na primeira semana, eu fingi que nada aconteceu. Mas o descontrole veio. E na época, eu estava no meio de um relatório complicadíssimo de uma mostra de arquitetura, ainda na assessoria de imprensa. Precisava retomar algum controle, ou não daria conta. Precisava concluir aquilo pra depois explodir. Senão explodiria de um jeito irreversível. 

Meu grito acordaria não só a sua casa, mas a vizinhança inteira. 

Sai tremendo do trabalho, as lágrimas rolando enquanto pensava no que fazer, mas eu lutava contra ela, aquela tristeza tão exata. Queria gritar, queria quebrar alguma coisa. Não terminei esse relacionamento do jeito mais fácil. Eu abri meu peito e arranquei aquele ser, que hoje me é um completo estranho, à força de dentro do peito. Então, no meio disso, eu precisava me concentrar. Não tive dúvidas, e voltei a fumar. Encontrava no cigarro um momento de calma, só meu, de reflexão. Hoje eu sei, e lá eu também sabia o quão autodestrutivo é isso. Pra me concentrar, eu arrumei um jeito de me destruir, porque na minha cabeça quebrada, eu queria sentir alguma coisa. Não era o controle apenas para o trabalho que eu queria, era a frieza, a placidez da destruição de tudo que me fazia saudável e bem. De algum jeito, eu me sentia imune à dor porque não sentia mais nada. Fumar virou hábito de novo. 

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. 

Há quase um mês eu fiquei muito doente. Não faltei ao trabalho porque sou teimosa, mas alguns dias eu nem sei como dirigi até o jornal. Foi uma gripe, um resfriado, uma tuberculose ou sei lá o que. Fiquei imprestável como há muito tempo não ficava. Ainda guardo um pouco de tosse e ranço na garganta, alguns espirros, mas melhorei. Então no decorrer desses dias acamada, e sem poder dormir três dias seguidos pra me recuperar, deixei o cigarro de lado em um dia. Depois no outro. E no seguinte. E depois de uma semana, anunciei em alto e bom som: parei de fumar. E não tô contando os dias exatos, fazendo calendário. Apenas deixando ir, deixando pra lá. Resistindo com as minhas forças. Tem dado certo. 

Disciplina é liberdade? acho que sim. Acho que se não é pra mim, vai passar a ser. Eu devo isso a mim mesma, mesmo que já faça tempo. Há tempos.