domingo, 30 de junho de 2013

Maresia

Em algum ponto dos dois últimos anos, não sei precisar muito bem quando, eu me perdi. Como quando  uma ventania que te carrega pra todos os lados. Essa minha ventania, me fez perder até quando me recordo. Hoje eu sei disso. Sei lá, eu só sei que perdi. Perdi o viço do sorriso e hoje ele é meio irreal. Crio e cultivo uma couraça esfarelenta todos os dias na porrada cotidiana. 

A onda veio, levou quase tudo embora e eu fiquei com a maresia salgada. Fiquei lá na beirada do rio olhando a água turva sem reconhecer nada mais do que um marrom alagado. Sem bossa. Sem novas. 

Não faz sentido. 

Não, a vida não pode ser tão ordinária assim, tão macilenta assim, pensei um belo dia. Faz tempo também e eu mesma não acreditei por muito tempo nas minhas palavras. 

"Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais.
Mais do que eu". 

Coitada da menina que cai no canto de ossanha. Acho que eu cai. Na maresia ela me chamou e eu fui naquela conversa de esquecer a tristeza de um amor, de ir e sofrer e morrer e viver. 

Ficou só a espuma. 

Aqui, aqui e aqui


terça-feira, 11 de junho de 2013

Fragmentos do reportar


Em meio a conflitos indígenas com morte, a força nacional descendo em Sidrolândia (a 64 km de Campo Grande) uns dias atrás e a morte do diretor do jornal onde eu trabalho por um infarto fulminante também uns dias atrás, a cidade anda um caos. A vida anda um caos. Os sentimentos de todo mundo que eu convivo andam um caos. 

"You're such a mess".

Em meio ao caos, um dia desses escrevia sobre uma peça de teatro. Quando dei o "save" final no arquivo, ouço um berro e a seguinte ordem: morreu uma criança atropelada no bairro Aero Rancho. Um ônibus passou por cima dela. Vá lá e cubra isso, ninguém em Cidades pode ir. E eu fui, pálida e temerosa, mas fui. Graças à bondade de uma colega da editoria de Cidades, fui esclarecida de que a criança havia morrido às 12h57. Eram 16h30. Ainda encontrei a poça de sangue e a matéria foi manchete naquele dia. 

Dias depois acordei às 6h30 da manhã de domingo pra ir escrever sobre um projeto social de orquestra sinfônica. 50 alunos de diferentes idades em um bairro abandonado me receberam tocando violino e violão clássico. O texto fluiu tão bem que nem acreditei, às 9h da manhã eu já estava com a capa do caderno toda pronta. 

"Did you see the last news about the U.S.A. Government?", perguntou minha teacher. Ela sempre me pergunta nas aulas sobre journalism, se é legal ser "a journalist"

Em meio aos passaralhos Brasil afora, em meio ao impacto da trágica morte que nos pegou há pouco tempo, em meio às noites mal dormidas. Em meio aos indígenas que usaram um cinegrafista como escudo lá em Sidrolândia, já que a polícia atirou e matou um deles. Em meio a crianças mortas por ônibus em bairros sem sinalização de trânsito. Em meio a verdadeiras odisseias para ajudar estagiário a entregar página, em meio a notícias de que artistas estão sendo negligenciados na cidade em que eu vivo, é legal, sim. 

Tem o projeto social que eu divulguei, porque graças a isso, outro projeto musical me ligou dizendo que viu a matéria e que gostou, e que gostaria muito de uma divulgação. E o próprio projeto que vai poder receber mais incentivo. Tem aquela matéria de comportamento que falou sobre lutar contra preconceito entre as pessoas, aquela peça de teatro maravilhosa que eu pude escrever sobre. Tem aquele dia em que eu entrevistei gente simples com história boa pra contar, que eu ajudei um artista a divulgar sua peça gratuita e que eu nessa pequeneza que sou, me senti orgulhosa e feliz por alguma coisa que havia feito, que havia escrito. De vez em quando a gente precisa reafirmar tudo isso pra si mesmo, pra ser mais resiliente.

Pra não se fragmentar nem se desfazer.