quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A journey

Tem uma onda selvagem que de vez em quando passa pelas nossas vidas que eu chamo de "bad trip". Sim, aquele termo cunhado pra quando aquele tóxico não dá o efeito desejado. Sometimes a vida é uma viagem ruim, mas aí você acorda no outro dia, faz o café, repensa umas coisas, refaz uns ~projs~, e segue o rolê. 

Faz horas eu tenho visto várias pessoas da timeline saindo da casa dos pais, da república, indo morar sozinho. E sim, isso é uma verdadeira aventura, uma trip daquelas. Uma aventura maravilhosa. 

Depois que eu fiz isso, que catei a matula e a Panci e deixei o conforto da casa da minha mamai, várias pessoas vieram me perguntar como foi, como está sendo e como será. Muitas vezes com um olhar brilhante de quem enxerga o risco que é deixar uma situação confortável para partir pra outra que pode não ser tão confortável assim. 

Pois bem, meu conselho pra todo mundo que tem ou teve a ideia de algum dia, por mais longe que esse dia seja, de sair da casa dos pais, é o seguinte: 
just do it

Faça isso. Viva isso. Vale a pena. 

Não vai ter comidinha quente da mamai feita na hora, esperando na mesa. Mas aí você aprende a cozinhar, compra só o que gosta pra por na geladeira. 

Não vai ter conta paga sem você perceber, mas vai ter você sabendo o valor do seu dinheiro e de todo mundo. 

Vai ter muita solidão? vai sim. Silêncio também. Mas também muito filme pra assistir, seriado pra alimentar o ócio. E se nada disso remediar, tem sempre os amigos e a família pra ver, tomar uns bons drink, fazer uns bons churras. 

Se eu não tivesse minha casinha, meu cantinho, nesse momento, eu ia estar embarcando na maior bad trip da história dos meus 25 anos. Mas não tô, porque chego em casa, brinco com meus gatos, faço panqueca e assisto Masterchef. Sinto mais saudade da minha família, e eles de mim. A solidão me abraçou como uma igual.Tô crescendo. 

Just do it.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Se você não brilha venha e pague minha luz

- Olar, eu me chamo Daiane, conhecida nas redes sociais por menina lyrinha, tenho 25 anos, sou jornalista e moro sozinha. 
- Sozinha? você é casada então, né. 
- Não não, só moro sozinha. 
- Mas como?
- Morando uai. Eu e minhas duas gatas caipirotas. 
- Mas porque? 
- Porque eu gosto, sempre quis ter meu canto. 
- Brigou com seus pais?
- Não, só gosto mesmo.
- Gosta de ficar sozinha?
- Sim, adoro. 
- Mas você é muito nova. Seus pais moram em outra cidade, veio pra estudar?
- Não, eu trabalho e pago minhas contas, meus pais moram aqui em CG mesmo. 
- Mas porque você saiu então, se mora na mesma cidade?
- Porque eu quis uai. 
- Mas... mas... mulher nunca sai de casa, só sai pra casar. 
- Quem disse isso?
- Todo mundo sabe. 
- "Todo mundo" machista, né? 
- Er... pensando por esse lado... acho que sim. 



Tô aqui lavando a minha roupa no meu tanque cujas contas eu mesma pago sem casar e sem lavar cueca de marido, tomando meus bons drink de perna pra cima com meu pijama furado de gatinhos na minha sala, falous valeus sociedade!

Porque é tão difícil entender que mulher pode fazer o que quiser?




terça-feira, 4 de novembro de 2014

Das opiniões sobre o meu corpo que eu nunca pedi

Esses dias eu estava comentando com a minha irmã que queria fazer uma tatuagem imensa no braço. E ela respondeu: eu preferia que você fosse pra academia cuidar da sua saúde. 

Eu fui pra academia a um tempo atrás e o instrutor disse que eu estou muito acima do meu peso ideal e me recomendou várias atividades e musculação. Fiquei uns dois meses malhando mais ou menos 2 horas por dia. No mês seguinte viajei e a academia ficou de lado. 

Quando eu malhava, fiquei com dor no corpo todo every fucking day, e a instrutora de musculação me deixava puta da vida. Primeiro porque era grossa quando eu pedia alguma ajuda pra ajustar um aparelho ou algo assim. Segundo, uma vez eu tava puta da cara levantando peso com as pernas e pedindo mentalmente pra Jesus me levar e ela disse "como ce é mole! vai gordinha". 

Como ce é mole. Vai gordinha. Vai gordinha. 

Sim, porque eu estava me sentindo ótima naquele momento e de certo a mulher tinha alguma intimidade comigo pra vir me chamar de molenga and gorda. Ok né? Não. Desanimei total e larguei a academia no terceiro mês. Meu peso não mudou muito desde então, mas muitas vezes fiquei indo e voltando nos meus pensamentos a respeito do meu próprio corpo. Meu. Corpo.

Há uns meses atrás escrevi um texto pro blog onde eu enaltecia a frase: "meu corpo, minhas regras", em que eu dizia com várias palavras que me amava como sou. Agradecia a uma pessoa por ter me ajudado com isso. Algum tempo depois decidi fazer academia. Fiquei amargurada com tudo e não postei esse texto até hoje. 

Eu vejo posts da Tess Munster e fico encantada. Ela é tão linda e tão estilosa e eu penso, nunca vou ser assim, me vestir desse jeito. Vejo postagens de gente chamando a amiga de gorda e de homens menosprezando mulheres com dobrinhas e  dizendo que vestir 44 é ser plus size. Não gente, não. 

Aí paro e penso na minha própria vida. Eu sempre fui grande. Quando era magra na adolescência (pq eu me achava gorda mas hoje sei que eu não era) as pessoas me notavam mesmo com as enormes tentativas de sumir atrás de uma cortina de cabelo. Eu tenho as costas largas, 1,69 m e calço 40. Eu nunca fui um padrão, nem serei jamais. 

Me pego pensando que tenho vontade de voltar no tempo e pegar a minha "eu" atual, que conhece o feminismo e que aceita o próprio corpo muito melhor e levar pra dar umas lições nas pessoas que vieram falar groselha sobre o meu corpo. 

Viagem no tempo 1:

- Eu aos 17 anos, indo tocar com a minha banda em um bar. O show tinha sido contratado por telefone e orkut. Na época, o baixista da banda era meu namorado. O cara que contratou o show me contactou pelo perfil no orkut (sdds). Quando chegamos no bar, eu sentei num banco e fiquei tomando umas esperando começar. Esse produtor sentou do meu lado e ficou conversando bobagem. Aí soltou: "Eu pensei que você fosse mais magra". 

Primeira reação foi pensar: -q. 

Segunda reação foi ficar com vergonha pensando "tô enganando as pessoas?". 

Minha eu atual chega e fala: "Amigo, veja este bar, está cheio de gente e ninguém te perguntou nada do meu corpo. Eu não te conheço, não te dei direito de achar nada a meu respeito. Flw Vlws". 

Viagem no tempo 2:

- Eu há dois anos atrás sentada num bar com meus amigos, chega meu ex-namorado com quem fiquei oito anos e sua atual namorada. Fui indiferente e continuei me divertindo, por motivos de que terminamos brigados e fazia quase dois anos que tudo tinha acabado, a vida segue afinal. No final da noite chega o garçom com um bilhete da menina pra mim, que ela deixou com ele e foi embora. E ficou ligando no bar pro cara entregar (que rolê imenso só pra entregar um bilhete). O bilhete dizia: "ele é meu sua gorda recalcada"

Primeira reação foi pensar: -q

Segunda reação foi ficar com vontade de jogar a mesa na cara dela, mas a garota não estava mais lá. Ela foi medrosa o suficiente pra entregar o bilhete e ir embora. 

Terceira reação foi ficar com pena dela por achar que eu ainda queria alguma coisa com um ex que eu realmente nunca mais tinha conversado na minha vida. Fiquei sem entender porque eles se importavam tanto comigo se eu jamais falei com ele depois do fim. Bateu um conflito. 

Minha eu atual chega e fala: "Garota, primeiro de tudo, meu corpo é meu e só meu e não entendi qual seu problema com ele. Tô agredindo seus olhos com a minha gordura? vira o rostinho pro lado minha querida! Segundo, mano, quem saiu do lugar pra mandar bilhete feito uma criança de cinco anos foi você e não eu o que demonstra o recalque real. Terceiro, fica pra você esse aí fia, e aceita que dói menos, vlws flws". 

Esse cara e essa mina, o que eles tinham em comum é o problema com o meu corpo. Um problema que  eu vou continuar lutando não pra ter. Não importa se eu emagrecer, pintar o cabelo, se eu engordar. A minha luta vai ser pra que ninguém se ache no direito de exprimir sobre mim, o que eu faço e como vivo, e quem eu sou, sua opinião sem consulta. E eu vou morrer lutando pelo direito de ser quem eu quiser. 

Flw, vlws. 








PS: A., aquela agradecimento do post nunca publicado é real. Obrigada. 





segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A mulher jornalista

Na última sexta-feira (24), fui uma das participantes da mesa redonda "Mulheres no Jornalismo: O que queremos" organizada pela semana de jornalismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a simpática Semajor. Ao lado de outra jornalista com o perfil completamente diferente, tinha a missão de falar sobre o que é ser jornalista e mulher. Pois bem. 

Rasguei o protocolo quando abri a fala dizendo que não dá pra falar sobre ser jornalista e mulher se a gente não discute quem é a mulher na mídia brasileira e quiçá mundial. Como vamos falar sobre o que é ser mulher dentro das redações, se dentro e fora delas, a gente ainda sofre desgraçadamente com um machismo que impera pras jornalistas ou não? impera pra todas nós?

As mulheres representam mais de 60% dos profissionais hoje dentro da área de jornalismo, entre assessorias e veículos de comunicação. Mas uma pequena parcela dessas mulheres está em um cargo de chefia. E a maioria esmagadora ganha menos que os colegas no mesmo cargo. 

A pesquisa detalhada foi feita pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e você pode checar em detalhes aqui. E o mais triste é que ela foi fazer um mapeamento do perfil do jornalista brasileiro e voltou com essa triste constatação de que, em mais uma área, a mulher é muito menos valorizada do que devia. E que o perfil do jornalista brasileiro é, pasmem, a jornalista brasileira. Citando a própria pesquisa: "(...) os jornalistas brasileiros eram majoritariamente mulheres brancas, solteiras, com até 30 anos". TÃ DÃ! (vinheta do Law & Order). 

Quando essa pesquisa veio à tona, o impacto foi mínimo mesmo a informação sendo incongruente: 1. Tem mais mulheres nas redações. 2. Elas não ocupam cargos altos e ainda tem salários menores. Chorei largada na cantareira. 

Mas muito além disso, o que mais me incomoda é como tratamos as mulheres na mídia. Quer dizer, o que publicamos sobre nós mesmas, sobre nosso próprio gênero. E foi sobre isso que falei na mesa, sobre as três vertentes da mídia machista: A "Musa" de qualquer coisa (insira aqui um grande evento brasileiro, principalmente esportivo. Apenas aguardando as ~musas das olimpíadas~). A reportagem "Por ciúmes, homem mata a esposa" (vamos começar a produzir matérias "por fome, ladrão rouba supermercado" aí por favor?) e a matéria do "suposto estupro" quando tem a palavra flagrante no mesmo parágrafo. 

Se sutilmente a gente massacra a mulher no nosso discurso jornalístico cotidiano, entre pautas e leads, vai ser diferente com a mulher jornalista? como discutir a vida dessa profissional (essa cara sou eu) se enquanto mulher, enquanto membro de uma sociedade, sou desvalorizada o tempo todo única e exclusivamente pelo meu gênero? 

É por isso que precisamos analisar nosso discurso sendo essa mulher jornalista. Sendo essa profissional que tem o poder de escrever o cotidiano das pessoas em qualquer mídia que seja. Mas nosso colega jornalista, aquele que ainda ganha mais do que a gente, também precisa. Vamos analisar nossos julgamentos pessoais sobre as matérias que a gente escreve. "Olhar sensível" das mulheres sobre a pauta não existe, a gente é treinada desde criança pra achar que tem que ter esse olhar. Mas o olhar crítico todo mundo pode ter. 

PS: Seu machista, pega aqui na minha pauta e balança! Olhar sensível é o deadline da sua cara! risos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Curvas

Completei hoje um mês morando sozinha. Entre xícaras de bolinha e momentos de paz e silêncio, completei uma etapa da minha vida. Em comemoração adotei mais uma gatinha, pra fazer companhia pra minha bravinha Panci, que passava muito tempo forever alone em casa. O nome escolhido combina com o quanto ela é voluntariosa, cheia de vontades e corajosa: Arya. (em homenagem à Arya Stark, veja bem). 

Fico me questionando, às vezes, se faz bem viver pra objetivos. Eu tinha esse, de morar sozinha, ter meu canto, minha casinha, há tanto tempo que perdi as contas. Agora eu consegui realizar ele e nada me faz mais feliz do que falar "vamos lá em casa que eu vou cozinhar" pras pessoas queridas. Agora vamos ao próximo, é a frase que martela minha cabeça. 

Da curva não sei mais nada. Penso que às vezes, a gente acha que vai chegar no fim da estrada quando realiza algo grande na vida. Mas me sinto ladeando essa curva, e alguma coisa maravilhosa me espera no fim, ou assim eu tento pensar. Eu sei que a jornada é tão importante quanto a chegada. E por isso vou suave. 

Esperando por mais curvas. 

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Eu quero ser escritora.  





sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Qualquer dia...

Qualquer dia eu vou acordar e te ver ressonando do meu lado, dormindo tranquilo porque seu sono é bem mais tranquilo que o meu. Eu me debato, resmungo, falo dormindo mas você não, então eu sinto, e sempre senti, que é como se você guardasse meu sono, me protegesse, me mantivesse segura quando eu cruzo as fronteiras do subconsciente, esse mundo aterrador onde as lembranças se transformam de uma forma nunca segura, sempre traiçoeira. 

Mas eu me sinto segura qualquer dia quando acordo ao seu lado. 

Qualquer dia eu vou ouvir você me contando sobre seu telescópio e sobre as coisas que você gosta, e sobre seu livro sobre guerras mundiais, e sobre seu seriado favorito que eu vou assistir. E você fala com paixão e ri da minha cara quando eu falo que seus gostos são engraçados, e me abraça dizendo que a minha banda favorita é tosca, depois de encher meu computador de música que você gosta. 

Qualquer dia você vai chamar a minha gatinha de gorda e vai fazer carinho do jeito exato que ela gosta, de uma forma que eu eu nunca vi ninguém fazer. E vai achar engraçado que ela goste tanto de você e fique te seguindo pela casa de um lado pro outro, miando, pedindo atenção, dizendo que ela é linda e engraçada e se parece comigo. 

Qualquer dia ela vai se aninhar em você pra dormir, porque assim como eu ela ama o seu calor. 

Qualquer dia eu vou comprar cada ingrediente do seu prato favorito com carinho, vou pegar minha panela favorita e vou cozinhar com toda a paixão que puder reunir em pimenta e sal. E vou te olhar comer e elogiar aquele prato que fiz, como se a comida que eu preparei pudesse traduzir tudo que eu sinto em demasia. 

E qualquer noite vou cutucar você com a ponta do meu pé por debaixo da mesa do restaurante chique, sem ninguém perceber, arrancando um sorriso de você enquanto você estende a mão e percebe que eu tirei o sapato quando alcança meu pé com as unhas escarlates. Sinto sua mão quente acariciando minha pele, quando você estende sua mão sobre a minha por cima da mesa de linho.  

Qualquer dia vai doer menos. Mas nunca vai ser menos amor. 


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Lar doce

"Casa" é a designação, o significado, a roupagem, o começo-meio-fim de um sentimento intenso de paz e sossego.

Para mim, e apenas para mim, é um todo palpável.

É um abraço que envolve seu corpo inquieto e que no momento do toque faz você transpirar calma de uma forma que você não pensasse possível.

É um momento de assistir televisão de pernas para cima, rindo de alguma coisa boba em um filme, onde não existem preocupações urgentes. É o cheiro de alho fritando na panela da cozinha enquanto pessoas queridas riem na sala.

"Casa" é chegar, abrir a porta, e uma felina se enroscar nas suas pernas te dando boas vindas com um miado fininho e alegre de saudade.

É você saber que cada coisa que está fora do lugar, na verdade, está no lugar que sempre deveria ter estado, porque tudo aquilo é você e seu lugar é ali. Apenas ali.

E tudo que te amargura e que te entristece deve ficar do lado de "fora". E quando você está ali na sua "Casa", você trabalha seus sentimentos de forma a criar aquela couraça pra lidar com seus medos quando pisar o pé lá "fora". Pra que, um dia, o "fora" não exista.

Só a "Casa".


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Eu era uma blogueira brasileira


Não me lembro bem quando eu decidi criar um blog. Acho que eu li uma matéria em alguma revista sobre o mundo revolucionário dos 'WEBLOGGERS' e pensei "dels, o que será isso?". Na época eu devia ter uns 12 anos de idade e uma internet discada daquelas que só podia ser acessada depois da meia-noite porque, segundo minha Mamai, era CARO, CARO DEMAIS. E no fim de semana era conexão o dia todo, olha que beleza. Sábado era dia de ficar ~paquerando~ no mIRC e preparando postagens e templates. 

Eu criei minha primeira conta no site Blogger Brasil. Nunca parei pra pensar direito nisso, mas a Blogger Brasil era a correspondente brasileira da Blogspot, ou Blogger.com, serviço que eu uso hoje mas que na época era dificil de usar, eu não entendia nada. Foi assim que me apaixonei por esse cantinho e descobri uma coisa ~aloc~ chamada HTML. E depois Photoshop. E depois comentários. Aos 15 anos eu era membro de uma vasta comunidade de bloggers, nossos diários da vida cotidiana, onde eu chorava a morte do meu hamster e xingava a minha irmã que tinha gritado comigo naquele dia. E as pessoas comentavam. Não tinha essa de ganhar dinheiro com blog. E o pessoal migrava aos poucos pra outros serviços, mas eu não, eu fiquei na Blogger Brasil. Até a Globo comprar e ser pago. 

Hoje, sem querer, digitei a url da Blogger e coloquei um .com.br no final. O site está lá, gente. Intocado. Os mesmos links de 2008, e lembrei que parei de usar o serviço em 2009. Se você clica em muita coisa dá erro, mas pensa, esse site é uma relíquia e está lá. Me deu saudades, nostalgia, de um tempo que nossa vida se passava dentro de uma micro-comunidade "blogueana", onde eu desabafava minhas peripécias adolescentes com esmero e muita atitude revolts. Tudo isso antes de eu gostar de jornalismo, de gatos. Eu ainda namorava, estudava pro vestibular, tinha banda, não tinha meu próprio quarto. Não tinha comido gelato de pistache, não conhecia São Paulo, não tinha visto o Queens of the Stone Age tocar. Estava lendo Sandman na madrugada boladona. Estava cheia de medos de virar adulta. Essa última questão ainda persiste.  

Tentei rastrear meus passos no Blogger Brasil e meu último blog por esse serviço ainda está lá! é um baú, um sarcófago, um navio naufragado cheio de tesouros. Obrigada, Globo.com (?) por manter esse site no ar. Se você quiser dar uma espiada tardia na minha adolescência (porque nesse último blog eu já tava na faculdade), clica aqui: Tecla Maldita (meu bloguxo s2). Acho que a Blogger Brasil é um cantinho empoeirado e muito querido da internet. Pelo menos pra esta que vos escreve. Tchorei de sdds de 2008. A vida parecia (e de certo era) mais fácil. /nostalgia 

PS: Depois, prometo, volto pra escrever sobre a aventura no Festival de Cinema de Gramado. Foi massa, foi lindo, foi Kikito. Bejs!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Alor mundo

A garganta doeu muito e parecia travada quando acordei hoje de manhã. Foi como se todo o peso de inúmeras coisas tivesse caído, finalmente, sobre o meu corpo. Mas como num mantra inquebrantável, a gente levanta, bate um cabelo pro lado, dá uma esticada nas costas (toma umas dose de tequila) e vai trabalhar. 

Pois bem, desabafo número um: tô saindo da casa dos meus pais. A conta matemática que resultou nessa decisão é bem simples: 25 anos de idade, um emprego ok, muita vontade de deixar várias coisas pra trás (agora é aquele momento que eu viro e falo "vamos beber que eu te conto". O dia que eu fundar o Bar da Lyrinha pfvr não reclamem). Tô juntando panelas usadas, armários de doação, coisas que as pessoas que me rodeiam não querem ou não precisam mais. Manda pra cá, realmente tô sem nada e aceitando o que vier. Passamos uma mão de tinta e pronto, ficará lindo na casinha. A casinha já existe, está tudo certo, apenas esperando eu levar a matula e o gato e começar a habitá-la. A mudança está prevista para a fatídica data de 13 de setembro. Já tenho até cafeteira que ganhei e fiquei muito feliz <3. Reflexão é que tenho pessoas muito fodas ao meu redor, e inclusive até geladeira e conjunto de pratos ~náuticos~ (sente o amor puro) eu ganhei. 

Desabafo número dois: amanhã eu tô indo viajar pra cobrir o Festival de Cinema de Gramado. Apenas um derradeiro comentário: será lindo. 

Desabafo número três: mesmo cansada e doente estou verdadeiramente inquieta. A vida anda meio doida por aqui. Doida e Doída. Chega o fim do dia eu penso na minha cama e no quanto quero dormir uma noite completa. Madrugada alta e meus olhos estão abertos no escuro. Eu devo funcionar ao contrário. 

PS: Depois de 4 anos trabalhando sem parar, setembro tô de férias. /tchorando de emoção.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Tempo de Felino

The animals, the animals
Trapped trapped trapped 'till the cage is full

A primeira vez que eu fitei as pupilas da minha cara-metade felina, a Pan, eu finalmente entendi. Ela se movimentava sem se encostar na grade da gaiola em uma pet shop. Ela andava na jaula minúscula de um lado pro outro atraindo minha atenção com seu corpo rajado lustroso, aqueles movimentos que o leão faz dentro da jaula quando se sente ameaçado, incomodado, nervoso. Me aproximei e ela também, a patinha metade branca cortou o ar e ela agarrou a manga da minha blusa. Isso foi em 2008. 

De manhã cedo eu abro os olhos e levo algum tempo pra despertar. E esse tempo do despertar é importante, é precioso. Eu não consigo aceitar que o despertador me acorde. Eu sou teimosa. Eu tenho meu tempo. 

Eu me sinto presa, enjaulada, acuada, quando esse tempo de assimilar as coisas que é muito meu - que pode ser um piscar de olhos como pode ser um dia inteiro, uma hora inteira, um ano inteiro - é tirado de mim. E ele foi, a vida adulta me tirou isso. 

Tem dias que eu me sinto o felino andando de um lado pro outro na jaula. Já tentou acariciar um gato quando ele não quer? ele tira o corpo do alcance da sua mão com toda a força que existe nele. Eu me sinto assim. 



Quando me cobram coisas que eu julgo não merecer, dentro da minha vida "pessoal", eu me sinto assim. E me aflora irritação e desprezo. "Você não responde minha mensagem". "Você disse que ia sair comigo e não saiu". "Você não me convidou". "Você devia trabalhar menos". "Você devia arrumar um namorado". "Você - insira aqui a sua sentença de algo que você achava que eu tinha obrigação e eu não tenho. Fecha aspas. 

The cage is full, stay away
In the darkness count mistakes

A vida adulta me judiou muito nesse sentido, e merecidamente, e eu não estava preparada. Eu acordava todo dia no piloto automático porque era assim que me sentia. Não sei bem dizer quando parei e pensei "nossa, eu sou adulta", mas eu me sentia sufocada e anulada ao mesmo tempo. Apanhei tanto que aprendi uma coisa muito lógica: separar a vida em responsabilidades inadiáveis e criar prazer nelas, do grupo das coisas que eu não sou obrigada. E num terceiro grupo eu agrego as coisas que eu desejo e faço a conta do que preciso pra chegar nelas. Parece lógico mas na minha cabeça é só um emaranhado de pensamentos e reações. 

É totalmente sem sentido, eu sei. Mas de alguma forma me resolveu e eu consegui seguir em frente e criar prazer nas necessidades, mas não, eu não sei lidar bem com a jaula. Nem com as jaulas que se chamam "carreira de sucesso", "contas a pagar", "amizades por ocasião", "amores vazios". Uma hora essas coisas cansam.

Taking steps is easy 
Standing still is hard

Aquele momento que o gato se ajeita sentado e lambe as patas, passa as patas sobre os bigodes lustrando-os com zelo e cuidado, mas de olhos fechados, aproveitando a sensação e a importância do gesto, esse instante é quando eu escrevo. Lustro os bigodes. Me mantenho longe da gaiola. E tento ser adulta por mais um dia. 


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Espacinho

Desde abril que não escrevo aqui. Fico encontrando motivos: o post que necessitava de fotos, a criatividade que não veio, a falta de tempo... e aí começo a pensar em novos blogs, novos espaços, outros projetos, outros escritos. E lembro que aqui, o mais básico e simples de todo, o meu Menina Lyra, tem faltado um certo zelo.

Eu havia escrito um post muito especial sobre a relação minha - e das mulheres que conheço, as de verdade - com seus corpos, mas talvez, por motivos que eu nem quero falar agora, talvez tenha que reescrevê-lo. O fato, é que eu voltei. E estava quase colocando as amarras de sempre em mim quando me dei conta e parei no último instante e pensei "preciso voltar às raízes".

O fato é que sempre que eu preciso desabafar, refletir, me expor e ao mesmo tempo me desconstruir, é nesse espacinho com esse template bobo e simples de um gato de óculos - é aqui que eu venho.

E eu voltei. Junto com as reflexões. Mais sinceras dessa vez.

Eu prometo. Pra mim mesma, aos mesmos. Ao menos.

*



Morreu Ariano Suassuna também. Fiquei triste. O sertão chorou feito Macondo quando Gabo se foi. O mais triste foi o jornalismo que matou ele antes da hora. As vezes eu me pergunto se escolhi a profissão certa ou se a profissão é que se perdeu na escolha. Mas isso é assunto pra depois. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O adeus a Gabo

Me faltou um pouco de coragem pra falar da morte do Gabo. Ele é meu autor favorito. Não tem outra pessoa na ~listinha~ no número um. É claro que gosto de centenas de escritores e escritoras, mas ele... doeu.

A televisão da redação ligada na Globo News. Eu concentrada na edição das páginas do dia. E alguém vira e fala "Gabriel Garcia Marquez morreu". Meu grito cortou a redação e eu fiquei em pé num rompante. Os olhos ficaram meio úmidos. Cabeça ficou zonza. As pessoas vinham falar comigo coisas cotidianas e eu não conseguia assimilar. "Deu no El País", alguém completou.

Abri imediatamente a notícia e li assiduamente. Um longo obituário. Continuava doendo. Abri imediatamente o bloco de notas e comecei a escrever a minha última homenagem à Gabo. Virou uma matéria:


Cheguei em casa pensando em falar pro meu pai: "Pai, o Gabriel morreu". Ele ia entender na hora, porque esse é nosso maior e melhor vínculo. Meu pai me deu um livro velho e encardido chamado "Cem anos de solidão" pra ler quando eu tinha 13 anos de idade. Eu conclui a leitura em pouco mais de três dias, numa tarde chuvosa e cinza como qualquer uma daquelas em que choveu anos sem parar em Macondo.

Eu nunca mais fui a mesma depois que li esse livro. Isso eu sempre tive muito claro pra mim. Sei que, quando ele partiu, choveu novamente em Macondo. Borboletas amarelas pousaram no resto túmulo de algum Buendía que sobrou do furacão.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Um pouco mais de Frida, por favor

Cidade do México, 
14 de abril. 

"Por 50 anos, o banheiro do quarto de Frida Kahlo permaneceu trancado após sua morte, na casa onde hoje funciona um popular museu na Cidade do México. O espaço só foi aberto há dez anos, revelando diversos baús de objetos íntimos, como cartas, fotografias e vestidos coloridos. 

Enquanto as correspondências viraram livros sobre a artista mexicana, seu guarda-roupa e suas fotos vão aos poucos chegando ao público. "Ela usava estes vestidos tradicionais para fortalecer sua identidade, reafirmar suas crenças políticas e para esconder suas imperfeições", diz a curadora Circe Henestrosa. "Seus amigos mais íntimos contam como Kahlo tinha um cuidado especial ao escolher o que vestir, dos pés à cabeça, com as mais lindas sedas, laços, xales e saias". 

A exposição traz também aparatos médicos que a artista precisava usar por conta de suas doenças (primeiro pólio e depois um acidente num ônibus). Há uma prótese de perna com uma bota de cano alto vermelha e um espartilho feito de gesso, decorado com uma foice e um martelo. 

Foi o muralista Diego Rivera (1886-1957), marido de Kahlo (1907-1954), que havia dado as ordens para manter o banheiro fechado por 15 anos após a morte da artista. Mas a mecenas Dolores Olmedo (1908-2002), amiga íntima de Rivera que tinha ciúmes de Kahlo, conseguiu manter o lugar lacrado por mais tempo. "É como sentar em sua sala de estar e folhear seu álbum de fotos. É muito pessoal", disse o presidente do museu, Stuart Ashman". 

Campo Grande, 14 de abril. 

Frida, Frida, Fridinha, com suas flores na cabeça e seu olhar desafiador. Hoje você fez meu dia menos cinza com essa notícia, de que um dia, quem sabe, eu posso chegar perto dos seus vestidos rodados, das próteses que fizeram você sofrer e também de pequenos mimos que fizeram parte de você. 

É que agora Frida, eu sou editora. Trabalho mais, tenho mais responsabilidades, e amo o que faço. Consigo por em prática tudo que imaginei ser possível durante um ano que fui repórter. Consigo construir, no dia-a-dia, toda a logística que acho válida dentro do caderno de cultura. Mas tem dias cinzentos pra essa jornalista que escreve. Tem dias difíceis, e não pela pauta ou pelo trabalho, talvez por outras coisas. Dias que a única coisa é sentar e trabalhar, e que você sente que não tem mais nada na sua vida tão coeso. Que suas responsabilidades são sua âncora, e que você se sente meio oca. A garganta dói, a cabeça perturba, os pensamentos assombram. 

Abri o site da agência e lá estava você. Segui buscando uma imagem para ilustrar a reportagem e minha retina ficou perturbada ao olhar tantas e tantas fotos suas, linda, esplêndida, as flores, a saia, os seios, tudo. E abri outros sites, outras reportagens, e mais imagens, e seus quadros, e tive quinze minutos de contemplação. Mais Frida no meu dia, por favor. Mais suas cores em mim. 




(A matéria é da Folhapress)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Venha dançar você até o fim

Tenho vivido um turbilhão. Ou turbilhões, e são tantas coisas vindo de tantos lados que escrever virou uma mera atividade cotidiana e automática. Eu amarro as palavras, dou um laço nas letras, amasso rascunhos, e devolvo folhas em branco. Dentro de mim permanece uma grande mancha de tinta. Faz tanto tempo desde que escrevi pelo mero prazer de externar aquilo que sentia aqui dentro. Um bom tempo. 

Sempre penso nisso, todos os dias, enquanto costuro teias e mais teias de hipóteses e teorias dentro da minha cabeça. Penso nisso segurando meu copo de vodka, enquanto raspo minhas botas de R$ 50 no chão nervosamente. Essas mesmas botas que eu uso todos os dias, que não tiro nunca. Isso me consome e arde junto com o gole, que desce pela garganta e eu queimo nisso. E penso nisso quando deito a cabeça no travesseiro e me lembro de um monte de coisas que eu nem queria lembrar. 


Fico tentando me recordar quando foi que eu permiti me deixar perder em essência. Em que ponto eu fui deixando de lado essa minha expressão vital. E quando é que eu vou retomar. Sinceramente? não sei. Não quero saber. Tenho raiva de quem sabe. Porque no dia que eu me cobrar disso, aí não vai fazer mais o menor sentido. 

. faz tempo esse som vem zunindo bem longe além dos suspiros . 

Minhas mãos estão travadas no escuro e eu me sinto dentro de um pesadelo. O de sempre, os gritos, a angústia, o pavor, o medo. O corpo paralisado. Tento abrir os olhos mas eles estão tão congelados quanto meus ossos, presos à cama. Mas aí de repente não é mais real e eu abro os olhos. É outro tempo. É outra vida. 

É como se não houvesse, dentro de mim, o que machucar, nem esses sonhos surreais e esse terror que eu sinto de vez em quando dormindo. Não, ainda há alguma coisa, mas é só um... cansaço. Até nos ouvidos escutam as conversas das torres. Até dentro da minha cabeça eu escuto um zumbido indefinido e que já parece fazer parte de mim. E é nesse zumbido que eu sei que março chega, que eu preciso reconstruir todas as coisas que sinto. Inclusive escrever. 

. pra quem perdeu o sono na velocidade do tempo, que zarpa e cala. 

E faço isso aos poucos, me reconstruo e reconstruo minha escrita, meu ar, de mansinho. No meu tempo, no meu próprio ritmo vital. É pra não me perder na correnteza de novo. 


domingo, 12 de janeiro de 2014

Sobre erro e preconceito

Por três anos da minha vida, na época em que eu fazia jornalismo, eu trabalhei com algumas meninas de Campo Grande pra tentar, de um jeito eficaz, ajudar uma porção de gatos de rua que cruzaram nosso caminho. Acolhi alguns em casa pra desespero dos meus pais, vi gato atropelado, famélico, judiado, abandonado. Simples assim, vidas descartáveis. As protetoras e protetores davam tudo que tinham e o que não tinham pra diminuir a estatística de abandono, recolhiam o animal, castravam, doavam. Tudo do bolso delas, dependendo de doações, mas sem desistir. Parei por umas simples razão: era isso, ou a minha saúde. Tem que ter estômago pra lidar com proteção animal. Precisa, como diz a Bia da Gatoca, ter um travesseiro à prova de lágrimas. Eu fiz o que dava e pensei, vou acabar ficando doente. Não é pra qualquer um defender uma causa assim, mas não só da boca pra fora: exaurir a própria saúde por um bem maior. E eu não vou nem começar a falar das críticas que as meninas ouvem até hoje, que na verdade não ajudam em nada. Quem critica não sabe o que é 1% daquilo. 

É por isso, entre outras coisas, que na sexta-feira, quando eu vi uma matéria em um site local com a manchete: "Após 1 ano sem morte, doença do gato faz a primeira vítima em MS", eu não me contive. Deixei um comentário no site, e o comentário não foi aprovado. Acho que nunca um comentário meu nesse site foi aprovado, exceto um ou outro elogioso. Então postei no meu perfil do Facebook a crítica e o link. A matéria também era sofrível por várias razões e culpava os gatos pela morte da menina de forma subjetiva no decorrer do texto, sem explicar muito bem a causa real da morte dela. Alguns pontos foram omitidos, como o fato de que a jovem era portadora do vírus HIV e recusava tratamento. Aliás, se eu for entrar nesse assunto como um todo, esse post vai ficar gigantesco. Enfim, doeu ver essa reportagem porque naquele instante pensei: daqui a pouco começam os abandonos.

Cerca de quatro ou cinco colegas de profissão do veículo vieram dizer que eu fui anti-ética de explanar na minha rede social minha crítica. Que eu deveria ter dado um 'toque' na repórter por conhecer o ritmo da redação, saber o quão punk é trabalhar com isso. Que eu deveria ter sido 'ética' porque um dia posso 'vir a trabalhar lá e não devo fechar portas'. Que foi um 'erro' e que eu, repórter, também posso 'errar'. Pois bem. Não.

Erro, acidente de percurso. Eu erro sempre, sempre. Semana passada eu fui esculachada por uma fonte porque escrevi que ele tocava 'rock com pegada blues' e na verdade, segundo a fonte, é 'blues com pegada rock'. Erro, engano. A gente tá passível disso, sim. Agora, dizer com todas as letras que 'doença do gato' mata uma pessoa de forma alarmante, sem levar em conta todo o resto, sem explicar direito que a toxo é transmitida ao ingerir as fezes do gato, e que comer carne bovina e verdura mal lavada é a forma de contaminação real, e ainda repetir 'doença de gato' várias vezes na matéria? cinco minutos de pesquisa no google e tudo teria sido esclarecido. Isentar a própria culpa, culpar a pressa, culpar o editor. Algumas vezes todos esses fatores tem culpa sim. Nessa matéria provavelmente também, a repórter deve ter sido prejudicada por vários fatores ao redor dela. Mas não dá mais pra gente se isentar de responsabilidade.

A consequência, infelizmente, foi aqui fora.

Ontem à noite uma protetora conhecida me chamou por inbox e disse: "acabei de recolher dois gatos abandonados pelos donos, que disseram ter visto a matéria e que não queriam morrer de toxo". Uma era uma gatinha que havia recém parido 6 filhotes. A protetora recolheu ela e toda a ninhada, mesmo sem espaço e sem lar temporário. O outro gato foi de um senhor morador de um prédio luxuoso. Era do filho dele, de 6 anos. A criança chorou desconsolada na porta do edifício e o pai disse "eu li aquela matéria e não quero arriscar a vida do meu filho".

Critiquem à vontade. Mas meu pensamento o tempo todo estava com quem vai lidar com as consequências reais do jornalismo, aqui do lado de fora da redação. Naquele momento, eu não tive a menor empatia pelo repórter por dois motivos: primeiro, nosso empregador é o primeiro de muitos. Segundo: eu sabia exatamente a consequência daquela matéria, e sabia que aquele erro foi por uma mera falta de pesquisa. Poderia ser diferente. E eu continuo sendo repórter. Não dá mais pra pensar que eu estou acima de tudo porque eu sou jornalista. Meu texto é a minha maior arma. Machismo e preconceito não serão mais tolerados, porque esse tipo de coisa não é um mero e simples erro de percurso. Vamos analisar melhor nosso discurso e sair dos lugares comuns, e tem que ser já. Nosso empregador não vai fazer isso pela gente. Em tempos de passaralho, é hora de parar de se isentar dos próprios erros e assumir, de frente, que nós temos responsabilidade pelo que escrevemos.

Não dá mais pra nós, que somos os formadores de opinião, continuarmos nos isentando da responsabilidade dos nossos atos. Simplesmente não dá.