domingo, 12 de janeiro de 2014

Sobre erro e preconceito

Por três anos da minha vida, na época em que eu fazia jornalismo, eu trabalhei com algumas meninas de Campo Grande pra tentar, de um jeito eficaz, ajudar uma porção de gatos de rua que cruzaram nosso caminho. Acolhi alguns em casa pra desespero dos meus pais, vi gato atropelado, famélico, judiado, abandonado. Simples assim, vidas descartáveis. As protetoras e protetores davam tudo que tinham e o que não tinham pra diminuir a estatística de abandono, recolhiam o animal, castravam, doavam. Tudo do bolso delas, dependendo de doações, mas sem desistir. Parei por umas simples razão: era isso, ou a minha saúde. Tem que ter estômago pra lidar com proteção animal. Precisa, como diz a Bia da Gatoca, ter um travesseiro à prova de lágrimas. Eu fiz o que dava e pensei, vou acabar ficando doente. Não é pra qualquer um defender uma causa assim, mas não só da boca pra fora: exaurir a própria saúde por um bem maior. E eu não vou nem começar a falar das críticas que as meninas ouvem até hoje, que na verdade não ajudam em nada. Quem critica não sabe o que é 1% daquilo. 

É por isso, entre outras coisas, que na sexta-feira, quando eu vi uma matéria em um site local com a manchete: "Após 1 ano sem morte, doença do gato faz a primeira vítima em MS", eu não me contive. Deixei um comentário no site, e o comentário não foi aprovado. Acho que nunca um comentário meu nesse site foi aprovado, exceto um ou outro elogioso. Então postei no meu perfil do Facebook a crítica e o link. A matéria também era sofrível por várias razões e culpava os gatos pela morte da menina de forma subjetiva no decorrer do texto, sem explicar muito bem a causa real da morte dela. Alguns pontos foram omitidos, como o fato de que a jovem era portadora do vírus HIV e recusava tratamento. Aliás, se eu for entrar nesse assunto como um todo, esse post vai ficar gigantesco. Enfim, doeu ver essa reportagem porque naquele instante pensei: daqui a pouco começam os abandonos.

Cerca de quatro ou cinco colegas de profissão do veículo vieram dizer que eu fui anti-ética de explanar na minha rede social minha crítica. Que eu deveria ter dado um 'toque' na repórter por conhecer o ritmo da redação, saber o quão punk é trabalhar com isso. Que eu deveria ter sido 'ética' porque um dia posso 'vir a trabalhar lá e não devo fechar portas'. Que foi um 'erro' e que eu, repórter, também posso 'errar'. Pois bem. Não.

Erro, acidente de percurso. Eu erro sempre, sempre. Semana passada eu fui esculachada por uma fonte porque escrevi que ele tocava 'rock com pegada blues' e na verdade, segundo a fonte, é 'blues com pegada rock'. Erro, engano. A gente tá passível disso, sim. Agora, dizer com todas as letras que 'doença do gato' mata uma pessoa de forma alarmante, sem levar em conta todo o resto, sem explicar direito que a toxo é transmitida ao ingerir as fezes do gato, e que comer carne bovina e verdura mal lavada é a forma de contaminação real, e ainda repetir 'doença de gato' várias vezes na matéria? cinco minutos de pesquisa no google e tudo teria sido esclarecido. Isentar a própria culpa, culpar a pressa, culpar o editor. Algumas vezes todos esses fatores tem culpa sim. Nessa matéria provavelmente também, a repórter deve ter sido prejudicada por vários fatores ao redor dela. Mas não dá mais pra gente se isentar de responsabilidade.

A consequência, infelizmente, foi aqui fora.

Ontem à noite uma protetora conhecida me chamou por inbox e disse: "acabei de recolher dois gatos abandonados pelos donos, que disseram ter visto a matéria e que não queriam morrer de toxo". Uma era uma gatinha que havia recém parido 6 filhotes. A protetora recolheu ela e toda a ninhada, mesmo sem espaço e sem lar temporário. O outro gato foi de um senhor morador de um prédio luxuoso. Era do filho dele, de 6 anos. A criança chorou desconsolada na porta do edifício e o pai disse "eu li aquela matéria e não quero arriscar a vida do meu filho".

Critiquem à vontade. Mas meu pensamento o tempo todo estava com quem vai lidar com as consequências reais do jornalismo, aqui do lado de fora da redação. Naquele momento, eu não tive a menor empatia pelo repórter por dois motivos: primeiro, nosso empregador é o primeiro de muitos. Segundo: eu sabia exatamente a consequência daquela matéria, e sabia que aquele erro foi por uma mera falta de pesquisa. Poderia ser diferente. E eu continuo sendo repórter. Não dá mais pra pensar que eu estou acima de tudo porque eu sou jornalista. Meu texto é a minha maior arma. Machismo e preconceito não serão mais tolerados, porque esse tipo de coisa não é um mero e simples erro de percurso. Vamos analisar melhor nosso discurso e sair dos lugares comuns, e tem que ser já. Nosso empregador não vai fazer isso pela gente. Em tempos de passaralho, é hora de parar de se isentar dos próprios erros e assumir, de frente, que nós temos responsabilidade pelo que escrevemos.

Não dá mais pra nós, que somos os formadores de opinião, continuarmos nos isentando da responsabilidade dos nossos atos. Simplesmente não dá.